Conheci o trabalho da artista plástica Maïs, na última sexta(22) no Dragão do Mar. A exposição tem o mesmo título de uma de suas principais composições: “Esquartejada”, onde uma mulher em tamanho natural, trajada em azul (se não me falha a memória), tem seu corpo divido em pedaços por caixas de ferro. O rosto coberto por um longo véu já estabelece a primeira divisão do ser feminino, que está escondido atrás dos panos com um rigor carcerário. E o seu corpo que não está factualmente em pedaços, mas as divisões visuais proporcionadas pelas caixas estabelecem a leve ideia de fragmentação do ser a partir dos objetos externos, pois vê-se o corpo apenas através destas quatro ou cinco caixas, uma manobra poderosa, que domina a atenção dos visitantes ao menos pela curiosidade. No salão estavam espalhados outros objetos, alguns incitando aspectos nebulosos ligados à mistério e sofrimento, como um boneco dentro de um cubo transparente com os membros esticados e amarrados, sobre ele o teto de vidro onde agulhas apontavam para a criação sem rosto.
Já na sala ao lado encontrava-se a obra que mobilizou minha atenção e que marcou como a grande experiência daquela visitação. Cobertos por panos em vermelho, o relevo de corpos espalhados no chão despertavam temor. Mesmo com toda a delicadeza da artista, sem expor os corpos diretamente (na direção oposta da última exposição de Yoko Ono em SP, em que os membros não polpavam 'sangue' e as representações de violência eram generosas em minucias de detalhes), não deixava dúvidas da vivência sombria da artista. O desconforto era grande, não só pela visão similar aos cotidianos noticiários onde massacres remontam o horror de dezenas de corpos sem vida estirados a esmo, mas pela incerteza se aqueles não seriam atores camuflados que a qualquer momento se levantariam e o que era de início suspeito tornar-se-ia um freak show. É eu sou muito desconfiada (risos). Felizmente, não é a esse aspecto que a obra evolui no olhar do espectador, depois da familiarização com aquela imagem a emoção chegou ao nível da comoção e do respeito pelos corpos. Custa acreditar que a obra se reduz àquilo, pois o horror ali representado já chegara ao que há de mais trivial, e é muito duro reconhecer isto, que muito do que é infinitamente triste tornou-se banal.
Testemunhei a nudez sutil dos corpos mortos e esquartejados por entre os quais eu caminhava, tentando contemplar e respeitar a pequena amostra de nossa natureza desumana manifesta no mundo. Vi que não era Maïs quem cultuava à decadência do espírito humano, e sim nós, cidadãos comuns que vivemos em nossa incalculável arrogância,crueldade e cinismo. Eu soube que era necessário olhar aquilo e viver aquela experiência, era preciso reconhecer aquela imagem sem nenhuma beleza, era absolutamente preciso.













































